Manifesto por um Brasil Literário

Cliquem e Assinem o Manifesto por um Brasil Literário, vale a pena participar de um movimento como este! Assistam tb ao depoimento de Bartolomeu Campos de Queirós. Um dos melhores escritores infanto-juvenis que este país já teve. Em breve lhe darei um espaço aqui no nosso blog.
Bjs a todos
http://www.brasilliterario.org.br/

O beijo da palavrinha IV

- Não importa, Poeirinha. Eu lhe conduzo o dedo por cima do meu.
Os pais chamaram o moço à razão: ele que poupasse a irmã daquela tontice e que a deixasse apenas respirar. Mas Zeca Zonzo fingiu não escutar. Ele tomou na sua mão os dedos magritos de Maria Poeirinha e os guiou por cima dos traços que desenhara.
- Vês esta letra, Poeirinha?
- Estou tocando sombras, só sombras, só.
Zeca Zonzo levantou os dedos da irmã e soprou neles como se corrigisse algum defeito e os ensinasse a decifrar a lisa brancura do papel.
- Experimente outra vez, mana. Com toda a atenção. Agora, já está sentindo?
- Sim. O meu dedo está a espreitar.
- E que letra é?
- É um "m".
E sorriram os dois, perante o espanto dos presentes. Como se descobrissem algo que ningém mais sabia. E não havia motivo para tanto espanto. Pois a letra "m" é feita de quê? É feita de vagas, líquidas linhas que sobem e descem. E Poeirinha passou o dedo a contornar as concavidades da letrinha.
- É isso, manito. Essa letra é feita de ondas. Eu já as vi no rio.
- E essa outra letrinha, essa que vem a seguir?
- Essa a seguir é um "a".
É uma ave, uma gaivota pousada nela própria, enrodilhada perante a brisa fria.

Clássicos

Não seja por isso Mari, o primeiro post após este do Mia será uma versão infantil de Don Quixote. Curioso que ando com uma vontade súbita de voltar a ler o clássico original que iniciei em 2005. rs Bjs e continue dando as dicas. Aceito tdas as boas sugestões!!!

Olhares fixos em Poeirinha


O beijo da palavrinha III

Contudo, a menina estava tão fraca que a viagem se tornou impossível. Todos se aproximaram da cabeceira e ali ficavam sem saber o que fazer, sem saber o que dizer. A mãe pegou nas mãos da menina e entoou as velhas melodias de embalar. Em vão. A menina apenas ganhava palidez e o seu respirar era o de um fatigado passarinho. Já se preparavam as finais despedidas quando o irmão Zeca Zonzo trouxe um papel e uma caneta.
- Vou lhe mostrar o mar, maninha.
Todos pensaram que ele iria desenhar o oceano. Que iria azular o papel e no meio da cor iria pintar uns peixes. E o Sol em cima, como vela em bolo de aniversário. Mas não. Zonzo apenas rabiscou com letra gorda a palavra "mar". Apenas isso: a palavra inteira e por extenso.
O menino ficou olhando para afolha parecendo que não entendia o que ele mesmo escrevera. Antes que disse alguma coisa, a irmã murmurou, em débil suspiro:
- Não vale a pena, mano Zono. Eu já nao distingo letra, a luz ficou cansada tão cansada que já não se consegue levantar.

O beijo da Palavrinha II

Que a ele o mar lhe havia aberto a porta para o infinito.
Podia continuar pobre mas havia, do outro lado do horizonte, uma luz que fazia a espera valer a pena. Deste lado do mundo, faltava essa luz que nasce não do Sol mas das águas profundas.
A fome, a solidão, a palermice do Zeca, tudo isso o tio atribuía a uma única carência: a falta de maresia. Há coisas que se podem fazer pela metade, mas enfrentar o mar pede a nossa alma toda inteira. Era o que dizia Jaime.
- Quem nunca viu o mar não sabe o que é chorar!
Certa vez, a menina adoeceu gravemente. Num instante, ela ficou vizinha da morte. O tio não teve dúvida: teriam que a levar à costa.
- Para que se cure, disse ele.
Para que ela renascesse tomando conta daquelas praias de areia e onda. E descobrisse outras praias dentro dela.
- Mas o mar cura assim tão de verdade?
- Vocês não entendem?, respondia ele.
Não há tempo a perder. Metam a menina no barco que a corrente a leva em salvadora viagem.

O beijo da palavrinha




Finalmente aí vai um pouquinho de Mia Couto pra vcs:

Era uma vez uma menina que nunca vira o mar.

Chamava -se Maria Poeirinha.
Ela e sua família eram pobres, viviam numa aldeia tão interior que acreditavam que o rio que ali passava não tinha fim nem foz.
Poeirinha só ganhara um irmão, o Zeca Zonzo, que era desprovido de juízo. Cabeça sempre no ar, as idéias lhe voavam como balões em final de festa.
Na miséria em que viviam, nada destoava. Até Poeirinha tinha sonhos pequenos, mais de areia do que de castelos. Às vezes sonhava que ela se convertia em rio e seguia com passo lento, como a princesa de um distante livro, arrastando um manto feito de redemoinhos, remendos e retalhos.
Mas depressa ela saía do sonho pois seus pés descalços escaldavam na areia quente. E o rio secava, engolido pelo chão.
Um certo dia, chegou à aldeia o tio Jaime Litorânio que achou grave que os seus familiares nunca tivessem conhecido os azuis do mar.
CONTINUA...